sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Vão da madrugada

Se eu contei sobre os meus medos, é porque com você não tinha medo. E eu que nunca gostei de bagunça, quando você me disse que era uma, achei engraçado, até gostei. Mas você foi covarde, meu amor, saiu no vão da madrugada, para que eu não ouvisse as tuas pegadas firmes que me assombravam toda vez que eu as ouvia e num segundo de susto, repentinamente acordava. Mas essa, especialmente essa (maldita madrugada!) eu não acordei. Você sabe, já estava acostumada, que mesmo quando nos soltavámos durante a noite, ainda assim, na manhã seguinte te encontraria. No mesmo ângulo, que de tão você, era seu: de lado, encolhida, e os olhos gigantes, quietos, adormecidos e sem anunciar nenhuma urgência, fazia os teus cílios parecerem maiores do que eles já eram. E as sardas, de madrugada, céu limpo, quase dia, ficavam sempre mais visíveis na sua pele clara. Os pés gelados, conduzidos pelo movimento do inconsciente e do sono, despercebidos sempre iam de encontro aos meus. Me arrepiava toda vez, mas eu gostava. Era uma forma de provar pra mim mesmo que embora você parecesse mais um sonho do que uma pessoa, estava ali. Agora o teu respirar falho enquanto dormia, ah, esse eu confesso que nunca me acostumei. Deus! Foi aí que eu comecei a sentir medo. Duas primaveras sabendo dessas suas manias do sono e eu ainda sentia tanto medo. E você ria. Às vezes, penso até que você foi embora por conta disso, sabe? Porque eu me camuflei no medo, tudo em mim era medo. Eu era o medo. Vai ver você também sentiu medo. Eu também sentiria, mas acontece que agora não sinto nada, quem dirá medo, meu bem…

PS: Se por acaso sentir saudade, sou eu. 
Virei saudade.
Despida de roupa, de alma e de medo:
Sua
Nua
Crua.

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